Porandubas Políticas - Por Gaudêncio Torquato - 20/06/2018

Quarta-feira, 20 de junho de 2018 - Migalhas nº 4.380.

Hora de trabalhar

O brigadeiro Eduardo Gomes fazia, no Largo da Carioca (Rio de Janeiro), seu primeiro comício da campanha presidencial de 1945. A multidão o ouvia em silêncio:

- Brasileiros, precisamos trabalhar!

Do meio do povo, uma voz poderosa gritou:

- Já começou a perseguição!
Bagunça geral. O comício acabou.

Leitura do momento

Este analista confessa que nunca em sua trajetória de ler a conjuntura viu horizontes tão nebulosos como os de hoje. Por isso, acha importante dedicar um tempinho à observação da temperatura ambiental, contemplando principalmente o clima social, o clima político e o clima econômico. Os três climas se imbricam para formar uma cadeia complexa, de onde se pinçam os inputs para tomar pé da situação. Vamos lá.

O ambiente social I

Há muita expectativa no que diz respeito à performance brasileira na Copa do Mundo, enquanto se constata um clima nada auspicioso em relação à política. O Brasil entrou na Copa com otimismo, eis que portava as bandeiras das vitórias nos dois jogos pré-Copa. Mas o que se viu contra o time suíço foi uma seleção travada, que não merecia ganhar. O sentimento social passou a ser negativo. Houve uma reversão de expectativas. Neymar, com suas quedas seguidas e cara de dor, tem sido alvo de gozações. E por mais que a CBF proteste contra a arbitragem do mexicano, que não teria se valido do árbitro eletrônico (VAR), o fato é que isso não nos daria uma vitória. O torcedor está frustrado, mas ainda esperançoso.

O ambiente social II

A depender do desempenho de sexta-feira contra a Costa Rica, podemos projetar um clima mais descontraído na paisagem social ou um ambiente mais pesado, que deverá abater o ânimo social, com consequências danosas sobre o processo político. Imaginem se o desempenho da seleção for desastroso. Vejo uma equação na lousa, escrita pelo povo: CR+CI+DS+NV, que podemos assim decifrar: Cabeça Revoltada, Coração Indignado, Desânimo Social, Não Voto (abstenção, nulos e brancos). Portanto, o NV poderá chegar à casa dos 35% para mais (historicamente permanece em torno de 30%). A recíproca é verdadeira. Se o Brasil levar a melhor, o animus animandi da sociedade se eleva com o incremento da autoestima, podendo ser a vitamina para enfrentar a batalha política com forte disposição.

O ambiente político I

Na esfera política, os pré-candidatos se movimentam sob um cruzamento de interrogações. Alguns deixarão de ser candidatos, como Rodrigo Maia. Outros ficarão isolados, como Marina Silva. É possível que falte gás aos líderes da corrida no momento, como é o caso de Bolsonaro. Os políticos estão olhando para o seu próprio umbigo, tentando pressionar seus partidos a fazerem alianças com eventuais nomes de maior probabilidade de vitória. O PT, por exemplo, vai ser assediado em Estados até por partidos de centro-direita. A política está com seu prestígio no buraco. Apesar da indignação social, a renovação no Congresso deve ficar por volta de 40%, índice menor que em campanhas passadas.

O ambiente político II

As pesquisas de intenção de voto, nesse momento, não flagram o ardor da campanha. Devem ser vistas como meras referências pré-eleitorais. Refletem as ondas do momento. Os recursos para essa campanha, mais curtos, e o tempo menor de propaganda e para a campanha de rua, incentivam candidatos a procurar apoios em estruturas organizadas - associações de categorias profissionais e movimentos. Não haverá tempo para o setor político se empenhar na votação de projetos importantes.

Depois da Copa, a partir de 15 de julho, aguarda-se uma revoada das aves políticas para seus ninhos estaduais.

O ambiente econômico I

A economia, depois de uma onda de otimismo no início do ano, sinaliza passos para trás. A inflação aumenta um pouco, o bolso começa a secar, os estômagos ficam mais vazios, o coração torna-se aflito e a cabeça se revolta. A equação, que sempre lembro, é: BO+BA+CO+CA= Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido e a Cabeça aprovando o governante. Não é o clima que temos. A massa sofre com o alto desemprego, mais de 13 milhões de brasileiros. O acesso ao consumo se restringe, apesar do esforço do governo para melhorar a situação do bolso das margens (liberação do PIS/PASEP, Fundo de Garantia, etc.). A ameaça de mais imposto continua ganhando voz por parte da equipe econômica. As bolsas sofrem imensa queda, o dólar sobe, as dívidas das empresas em dólares vão para a estratosfera, a confiança dos investidores se esvai.

O ambiente econômico II

Parecia até que um princípio de euforia animava os setores produtivos. Um balde de água fria gelou os ânimos. O PIB agora já não chegará a 1,5% como se apregoava no início do ano. As vendas no varejo não sobem no ritmo que se esperava. A própria venda de televisores, sempre um fenômeno às vésperas de uma Copa do Mundo de futebol, encolheu. A economia, em compasso de refluxo, afeta o ânimo social, disparando mal-estar, desarmonia, raivas e indignação. Os movimentos sociais, sob essa cadeia de coisas negativas, poderão voltar às ruas. Basta que a pólvora, guardada em seus estoques, seja atirada nas fogueiras a serem acesas até outubro.

O vulcão social I

Esse analista já foi mais otimista. Mas começa a enxergar nuvens plúmbeas escurecendo o amanhã.

Vejo um magma em formação subindo à superfície para explodir na erupção de um vulcão social, caso se eleja este ano um perfil de extrema direita ou esquerda. De extrema esquerda, é praticamente impossível. Não temos um perfil com esse porte. Mas na extrema direita, há o capitão Jair Bolsonaro.

Se eleito (hipótese em que muitos acreditam, este analista, não), Bolsonaro conduziria o país a uma posição conflituosa. Estabeleceria de imediato a disputa de "cabo de guerra" entre militantes, com arengas e querelas expandindo posições radicais e envolvendo classes sociais em confrontos nas ruas.

A ingovernabilidade ganharia corpo, o clima social ficaria sob a ameaça de um rastilho de pólvora.

Os bolsonarianos parecem querer acender o pavio. O vulcão pode entrar em erupção ante gestos tresloucados de um governante.

O vulcão social II

Mas se um perfil da esquerda, do PT ou por Lula apoiado, ganhar a eleição e brandir o refrão do apartheid social, "nós e eles", o vulcão também pode explodir. Nunca presenciei tanto ódio entre alas em minha trajetória de analista da política. O fato é que o país está dividido. E a hipótese de harmonia social não passa de lorota expressa pelas extremidades. O que se vê na linguagem de militantes é a destilação de ódio, infâmias, acusações pesadas e enaltecimento das ditaduras.

Cenários

Façamos, agora, algumas projeções, levando em consideração a moldura que hoje se enxerga. A partir das pesquisas - que colocam Lula e Bolsonaro na liderança - podemos fazer alguns cenários.

Como Lula não será candidato, devendo o plano B ser ocupado por Fernando Haddad, vejamos os cenários que traço para o 2º turno e respectivas vitórias. Insiro nas possibilidades os candidatos: Jair Bolsonaro, Marina Silva, Fernando Haddad, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin. São estes com maiores cacifes para despontar no final da linha. Em minhas projeções, não vejo possibilidade de Jair Bolsonaro ganhar de nenhum candidato no 2º turno. E nem de Fernando Haddad, que será o plano B do PT.

No I Cenário, Bolsonaro versus Fernando Haddad. Vitória de Haddad.
No II Cenário, Bolsonaro versus Ciro Gomes. Vitória de Ciro Gomes.
No III Cenário, Geraldo Alckmin versus Bolsonaro. Vitória de Alckmin.
No IV Cenário, Marina versus Bolsonaro. Vitória de Marina.
No V Cenário, Alckmin versus Ciro Gomes. Vitória de Alckmin.
No VI Cenário, Marina versus Ciro Gomes. Vitória de Ciro Gomes.
No VII Cenário, Haddad versus Alckmin. Vitória de Alckmin.
VIII Cenário, Haddad versus Ciro Gomes. Vitória de Ciro Gomes.
IX Cenário, Marina versus Alckmin. Vitória de Alckmin.
X Cenário, Marina versus Haddad. Vitória de Marina

Argumentos

Nas projeções deste consultor, alguns argumentos aqui são alinhavados. O primeiro envolve a rejeição do perfil radical de Jair Bolsonaro. Na hora H, propícia a uma análise racional dos perfis, o eleitor tende a optar por um candidato que demonstre experiência, conhecimento dos problemas brasileiros e moderação, entre outros valores. Fernando Haddad, marxista convicto, exibe bom perfil, mas encarna a posição clássica do PT (apartheid social, "nós e eles"), que desperta ódio, indignação, repúdio. Entre protagonistas mais aproximados, particularmente no espaço do Centro, o eleitor tende a votar em mais experientes e de maior visibilidade. Forte traço negativo de um candidato poderá ser fatal para ele.

Fecho a coluna com historinha das Minas Gerais.

Lei da Gravidade

A Lei da Gravidade, de vez em quando, dá dor de cabeça aos mineiros. E a lei da gravidez, essa, nem se fala. Na Câmara Municipal de Caeté, terra da família Pinheiro, de onde saíram dois governadores, discutia-se o abastecimento de água para a cidade. O engenheiro enviado pelo governador Israel Pinheiro deu as explicações técnicas aos vereadores, buscando justificar a dificuldade da captação: a água lá embaixo e a cidade, lá em cima. Seria necessário um bombeamento que custaria milhões e, sinceramente, achava o problema de difícil solução a curto prazo, conforme desejavam:

- Mas, doutor - pergunta o líder do prefeito - qual é o problema mesmo?

- O problema mesmo - responde o engenheiro - está ligado à Lei da Gravidade.

- Isso não é problema - diz o líder - nós vamos ao doutor Israel e ele, com uma penada só, revoga essa danada de lei que, no mínimo, deve ter sido votada pela oposição, visando perseguir o PSD.

O líder da oposição, em aparte, contesta o líder do prefeito e informa à edilidade, em tom de deboche, que "o governador Israel nada pode fazer, visto ser a Lei da Gravidade de âmbito Federal". E está encerrada a sessão.

(A historinha é de José Flávio Abelha, em seu livro A Mineirice).



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