Coluna - Prof. Dr. João Cozac | Adolescência normal - (também para os pais)

Nosso querido colunista, Prof. Dr. João Ricardo Cozac, aborda tema fundamental hoje em seu espaço: adolescência dos jovens. Boa leitura!

 Meninos, Young, Adolescentes, Pés
Foto: Pixabay


Nos atendimentos clínicos com adolescentes (atletas e não-atletas) e na pesquisa de doutorado sobre ansiedade e concentração em jovens tenistas, mergulhei no fantástico universo do estudo da adolescência. Em algumas reflexões - especialmente as sugeridas pela psicanalista argentina Arminda Aberastury, divido com os amigos pensamentos e insights sobre essa fase mágica do desenvolvimento humano.
Entrar no mundo dos adultos - desejado e temido - significa para o adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. É o momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento.
É um período de contradições, confuso, ambivalente, doloroso, caracterizado por fricções com o meio familiar e social. Esse quadro é frequentemente confundido com crises e estados psicopatológicos.
O adolescente sente a ameaça iminente de perder a dependência infantil - ou se assume a independência total.
Quando o comportamento dos pais implica numa falta de compreensão das flutuações extremadamente polares entre dependência e independência, refúgio na fantasia e desejo de crescimento, conquistas do adulto (um espaço refúgio em suas fantasias e anseios) dificulta-se o trabalho do luto, no qual são necessários permanentes ensaios e provas de perda e recuperação de ambas as idades: a infantil e a adulta.

Ocorre que também os pais vivem os lutos pelos filhos, precisam fazer o luto pelo corpo do filho pequeno, pela identidade de criança e pela sua relação de dependência infantil. Agora são julgados por seus filhos, e a rebeldia e o enfrentamento são mais dolorosos se o adulto não tem conscientes os seus problemas frente ao adolescente.

O problema da adolescência tem uma dupla vertente, que, nos casos felizes, pode resolver-se numa fusão de necessidades e soluções. Também os pais precisam se desprender do filho criança e evoluir para uma relação com o filho adulto, o que impõe muitas renúncias de sua parte. Ao mesmo tempo, e, creio, o fundamental desse processo, a capacidade e as conquistas recentes dos filhos obrigam-no a enfrentar-se com suas próprias capacidades e avaliar suas conquistas e fracassos.

A forma como os pais e a família, enquanto instituição, vivem o processo da adolescência dos jovens (e de seus próprios caminhos de evolução) determinam e/ou catalisam o ingresso saudável na fase adulta. A violência dos estudantes não é nada mais que a resposta à violência institucionalizada das forças da ordem familiar e social.

O adolescente, cujo o destino é a busca de ideais e de figuras ideais para identificar-se, depara com a violência e poder - e também os usa.

O exercício do limite e da tolerância na educação dos jovens passa, inevitavelmente, pelo processo agudo - e igualmente complexo - do envelhecimento dos pais e a constituição de novas possibilidades físicas, mentais, sociais, profissionais, econômicas etc.

Portanto, o processo da adolescência deve ser ampliado em sua concepção e avaliação pelos pais e responsáveis. Processos que envolvem maturação - necessariamente, envolvem diversos segmentos familiares e sociais. Se a família e a sociedade não estão preparadas para esse mecanismo natural da vida, muito poderá ser perdido em conjunção com as novas gerações que estão aí e também aquelas que estão por vir.
Dr. João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte. Presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. Doutor pelo laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP. Contatos: www.ceppe.com.br / secretariapsidoesporte@uol.com.br

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